Escrever também é deixar herança
Quando a minha esposa e eu namorávamos, nós tínhamos um acordo: sempre que completássemos mais um ano juntos, no nosso aniversário, daríamos um presente especial um para o outro. Mas havia um detalhe importante:
Não podíamos comprar nada. Teríamos que ser criativos e buscar, com simplicidade, surpreender um ao outro com um gesto genuíno do coração, o que vai além daquilo que o dinheiro pode comprar.
Mais do que dar presentes, nós queríamos construir memórias. Queríamos investir tempo naquilo que faríamos para declarar o quanto apreciávamos o nosso relacionamento e a vida que estávamos construindo juntos.
Ela sempre foi muito criativa e não precisava fazer muito para me surpreender e demonstrar o quanto ela me ama. Eu, por outro lado, sendo um perfeccionista patológico, sempre tive dificuldade em escolher o que fazer.
Ela é a pessoa imperfeita mais do que perfeita pra mim, então o que quer que eu fizesse deveria estar a altura dela. Eu nunca consegui – óbvio.
Mas uma vez eu tive uma ideia:
E se eu escrevesse para ela uma carta por dia durante um ano, registrando tudo o que eu admirei nela naqueles 365 dias e na minha vida por estar com ela?
Decidi começar naquele mesmo dia.
A questão é que quando eu tomei essa decisão, nós éramos noivos. E eu comecei a escrever as cartas faltando exatos 104 dias para o nosso casamento.
Eu não tinha pensado nisso, mas eu acabei registrando tudo o que aconteceu nos [quase] 4 meses que antecederam a celebração do matrimônio!
O dia que compramos cada um dos móveis da casa; o dia em que ganhamos as passagens aéreas da lua de mel; e cada uma das conquistas que vivemos durante aqueles mais de 100 dias foram registradas nas cartas.
E continuei escrevendo mesmo depois de nos casarmos. Foi difícil manter o sigilo. Eu sempre escrevia quando ela estava dormindo ou fora de casa. Quando eu entreguei as cartas para ela em uma caixa de presentes cheia de detalhes e mimos, ela ficou muito emocionada. Valeu a pena! Aquele sorriso no rosto dela simplesmente não tem preço, de fato.
Vamos completar 19 anos juntos em Novembro deste ano. Quase 14 anos casados. E ainda hoje nos emocionamos ao ler essas cartas juntos. Reviver todos aqueles dias cheios de alegrias e sonhos sempre vai nos deixar com um sorriso no rosto.
Eu fico imaginando como vai ser para nossas filhas no futuro… será que vão ler aquelas cartas um dia? Se sim, como vão se sentir? O que vão aprender?
Pensando naqueles dias em que eu escrevia com o propósito de dar alegria à minha esposa, eu me dei conta que deixei um pedaço da nossa história registrado para as gerações futuras. Percebi que escrever também é deixar herança.
E o que dizer deste Blog? Será que este espaço pode ser considerado uma coleção da minha história? Reflito sobre minhas motivações para escrever tudo o que escrevo por aqui.
Por mais que eu escreva por prazer e sem expectativas de que outras pessoas vão ler, eu fico feliz de imaginar que minhas filhas, quando crescerem, terão acesso aos textos e registros dos pensamentos do pai.
Encorajo você a escrever também. Se não quiser escrever para outras pessoas, escreva para si. Mas saiba que aquilo que você escreve hoje é uma oportunidade para alguém conhecer mais sobre você amanhã.
Não busco ser lido por milhares de pessoas. Eu sou o principal leitor do meu Blog. Isso basta. Mas agora também escrevo para que minhas filhas me leiam um dia. Escrevo hoje lembranças para o futuro.